Abaixo estão alguns pontos simples e directos sobre como se
iniciar na meditação. Com prática e tempo, o resto do processo constrói-se
sobre esta prática básica.
É um desafio descrever a iniciação à meditação (ou
meditação principiante). Num extremo é possível que nada seja referido sobre a
sua verdadeira profundidade e ficar-se retido nos níveis mais superficiais
durante anos ou mesmo décadas e no outro extremo pode a explicação soar tão
complicada que a meditação parece algo impossível.
Processo:
Alonga o corpo: É muito útil fazer alguns
alongamentos antes de te sentares para meditar. Não é necessário ser um
processo demorado, no entanto pode sê-lo se desejares. Mesmo apenas uns minutos
ou literalmente alguns segundos podem ajudar. A maior ênfase deverá ser na
coluna e no pescoço, dobrando para os lados, para a frente, para trás e
torcendo também para ambos os lados. Mesmo que não faças uma série de alongamentos,
fazer apenas alguns no teu assento para a meditação ajuda bastante.
Sente-se
direito: Ao sentar direito o peso do corpo está
equilibradamente distribuído. A gravidade mantém o corpo no lugar sem pender ou
cair para a frente, para trás ou para os lados. Este princípio incrivelmente
simples é uma grande ajuda à meditação. Sentar-se “direito” significa manter
uma curva natural na coluna e como pode levar algum tempo para desenvolver uma
boa postura sentada, usa a postura que for confortável para ti, se sentar no
chão te for desconfortável podes sentar-te numa cadeira.
Reflecte no
teu dia ou vida: Durante os primeiros minutos dá intencionalmente à tua
mente tempo para pensar sobre as actividades do teu dia-a-dia. Não se pede para
te deixares levar por preocupações, mas sim apenas para dares algum tempo à
mente. Ao fazê-lo irás permitir que naturalmente ela se acalme. Também é
proveitoso dedicar um tempo para reflectires calmamente no propósito espiritual
que tens para a tua vida, ou o que quer que sintas pessoalmente acerca do seu
rumo.
Está consciente do teu corpo: Traz
a tua atenção para o teu corpo. Explora o corpo como se estivesses realmente
curioso. Fá-lo com os teus olhos fechados, usando a tua atenção interior.
Maioritariamente este processo envolve a sensação do tacto, uma vez que estarás
a “sentir” o teu corpo. Percorre todas as partes: cabeça, braços, tronco e
pernas. Existem muitos métodos sistemáticos que podes aprender, mas o mais
importante é realmente explorar, sentindo-te como um investigador do teu
interior. Não há necessidade de dizeres palavras como “relaxe”, uma vez que a
própria exploração irá relaxar o corpo. Se isto te fizer sentir realmente bem,
todo o teu tempo de meditação pode ser focado nesta consciência corporal.
Algumas pessoas adoptam esta prática durante meses ou mesmo anos apesar de ser
uma meditação básica. Embora lhe falte a verdadeira profundidade da meditação,
pode ser realmente útil na redução do stress
uma vez que estamos repetidamente a trazer a atenção ao nosso corpo quando a
mente divaga. Se te parecer agradável e o desejares podes passar para a
meditação na respiração após alguns minutos com o corpo.
Está consciente da respiração: A
respiração consciente é um dos melhores pontos de focagem para a meditação
básica. Interessantemente, a respiração consciente pode também ser uma
extremamente subtil meditação avançada se é permitido o direccionamento da
atenção para dentro e através das energias subtis na base da respiração. Na
meditação principiante o mais fácil é sentir o fluxo do ar nas narinas, é
através da sensação do tacto que acompanhamos o ar a entrar e sair. É útil
abandonar irregularidades na respiração permitindo que se torne suave, assim como
também o é permitir que a respiração se torne confortavelmente lenta, tudo
isto, procurando que não se torne num esforço. Acima de tudo, gentilmente
elimina qualquer pausa nas transições entre respirações, permitindo que cada
uma flua gentilmente para a seguinte. É como um pequeno jogo onde vemos quão
suave e contínuo podemos manter o nosso fluxo respiratório. Na
meditação principiante podemos dizer que possuir diferentes técnicas de
respiração é muito importante, mas todas as técnicas se baseiam numa sólida
fundação de auto-consciência. Portanto é a própria consciência da respiração
que é a parte mais importante, tudo o resto virá com o tempo.
Concentra a mente: A consciência da
respiração por si só pode ser suficiente como ponto de focagem para a mente.
Existe uma espécie de debate a decorrer entre abordagens à meditação: alguns
dizem que nos devemos concentrar na mente, outros dizem que não o devemos
fazer, permitindo que a mente simplesmente divague para onde quer. Para a maior
parte das pessoas, uma mistura destas duas abordagens é mais útil. No início
focamo-nos no corpo, como descrito acima, depois vem a concentração na
respiração, como na consciência da respiração nas narinas. Se nos sentirmos
confortáveis com isso poderemos colocar a atenção no espaço entre as
respirações, no chakra do coração ou no espaço entre as sobrancelhas (ajna
chakra). Existem muitas escolhas possíveis para ter como objecto de
concentração mas o princípio é o mesmo. Mais uma vez, um dos mais directos e
simples “objectos” para a meditação é a respiração. Se te for confortável, o
mantra Soham é muito útil na prática da consciência da respiração.
Testemunha o fluxo dos pensamentos: Enquanto
a mente está focada, podemos também permitir aos pensamentos no campo mental
fluírem sem interrupção. É um pouco como guiar um carro, onde os teus olhos se
encontram na estrada mas a tua consciência está a assimilar todas as outras
actividades dentro da tua visão periférica. Todos fazemos isto regularmente nas
nossas vidas, neste e em muitos outros casos. Mesmo na meditação principiante
podemos cultivar esta postura de gentilmente focar a mente enquanto
testemunhamos os outros pensamentos no fluxo mental. Eles fluem, mas não são
fonte de distracção ou perturbação. Isto pode parecer bastante difícil, mas na
realidade não o é, desde que nos lembremos da simplicidade (como o caso
referido de guiar um carro e observar a periferia) poderemos manter-nos focados
e mesmo assim observar os processos interiores da mente. Iniciar esta prática
mesmo na meditação principiante leva-nos bem longe na preparação para a
meditação avançada. Lembra-te de manter a mente focada nesse lugar ou espaço,
nesse objecto, (como por exemplo a respiração) permitindo esses outros
pensamentos fazerem o que quiserem enquanto nós permanecemos como testemunha
imparcial.
Reverte o processo para terminar: Quando
termina a meditação, é extremamente útil finalizar por retroceder nas etapas
deste processo, “saindo” da mesma forma que “entraste”. Isto poderá ser feito
num minuto ou menos, por exemplo: se estiveste a meditar no centro do coração,
por momentos regressa com a atenção à respiração nas narinas, depois para todo
o corpo e então abre gentilmente os olhos. Depois, lentamente move o teu corpo,
mantendo-se consciente para que possas trazer a experiência da meditação contigo
para o exterior.
Alguns outros pontos úteis para te iniciares na meditação:
Mesma hora, mesmo lugar: Consistência é muito útil
para formar um bom hábito de meditar. As pessoas muitas vezes queixam-se de não
ter “disciplina”, mas se a meditação é um hábito, então não é necessária
qualquer disciplina. Nós vamos para o trabalho, fazemos as refeições e fazemos
muitas outras tarefas regularmente pela simples razão de termos formado esse
hábito. Perceber este princípio é extremamente útil para te iniciares na
meditação. Não é realmente assim tão difícil de fazer.
Um minuto
ajuda: Não se está aqui a tentar criar uma espécie de método
de “meditação-num-minuto”, mas muito mais importante que a duração da meditação
é o facto de dares a ti próprio um momento que é só para ti, para a
tranquilidade e para a calma. Haverá certamente alturas em que irá sentires que
“não tenho tempo”, mas há sempre tempo para sentar por um minuto, fechar os
olhos e lembrar. Não é a duração que transforma a meditação num hábito mas
sim a frequência, e a frequência ideal é a diária, mesmo desde a introdução
a esta prática.
Espaço
confortável: Cria um espaço confortável na tua casa para a
meditação. Poderá ser um quarto separado usado apenas para a meditação ou um
espaço tranquilo numa área mais sossegada da tua casa. Torna-o um sítio
simples, mas permite-te personalizá-lo, para que seja o teu santuário privado.
Embora a meditação seja um processo interior, poderás gostar de ter por perto
certos objectos que te ajudem a sentires-te confortável. Toda a vida virá a
girar em torno desse teu sítio especial.
Assento: Usa apenas
uma almofada, manta ou cadeira, usando sempre a mesma. Permite que este assento
se torne uma espécie de “casa-mãe”. A tua mente virá a reconhecê-lo como um
sítio especial a visitar enquanto trazes consigo a sua recordação ao longo do
dia. Ele irá dar um ponto focal às 24h do teu dia. Usa esse assento apenas para
o propósito da meditação, se possível. Por exemplo, se é uma cadeira dum quarto
não a uses para armazenar roupa, isto forma uma relação especial na mente que é
útil para desenvolver um bom hábito de meditação. Algumas pessoas gostam de ter
um tecido fino sobre o assento para que este tecido possa ser levado consigo
quando se desloca para outro local, como em viagens.
Higiene: É
óptimo tomar um duche antes da meditação e esvaziar a bexiga e intestinos.
Mesmo apenas um pouco de água na cara ou lavar a cara com uma toalha pode saber
optimamente.
Tempo
depois de comer: Permite que algum tempo passe após comer antes de
iniciares a meditação. Idealmente isto seria algumas horas, no entanto, ao
iniciar-se na meditação as pessoas descobrem por vezes que a sua vida ainda não
está organizada de forma a permiti-lo. No entanto temos que ser realistas com a
meditação. Se te apetece sentar em sossego após uma refeição, não faz qualquer
sentido andares a passear à espera que o tempo passe, vai em frente e senta-te
calmamente por uns minutos.
Mantém as
coisas simples: Ao iniciar a meditação, um dos pontos mais
importantes é manter as coisas simples. Até mesmo ler as sugestões neste artigo
pode começar a fazer parecer tudo mais complicado, coisa que não o é. Se nós
criamos um hábito simples de aparecer à mesma hora no mesmo sítio diariamente
esse hábito vai permitir que a prática se expanda com o tempo.
Que possam
as tuas meditações trazer-te paz e felicidade.
Tradução: Espaço Sattva